No dia 13 de maio de 2025, a turma do 2º ano da unidade curricular “Optativa II – Intervenção em Serviço Social – Justiça”, da licenciatura em Serviço Social da ESE do IPBeja, promoveu a roda de conversa “Serviço Social, Infância e Juventude: direitos e cidadania na área sócio judiciária” que teve como objetivo, aprofundar o conhecimento sobre o papel do serviço social nas diversas instituições que atuam nos domínios da justiça, prevenção, proteção e reinserção social de crianças e jovens envolvidos em conflitos judiciários.
A atividade decorreu no auditório da ESE e foi dirigida a todas e todos estudantes do 1º ao 3º ano da licenciatura em Serviço Social, também estava voltado a professores e professoras, assistentes sociais, orientadores de estágios e o público interessado na temática.
A organização da roda de conversa na busca de promover momentos de reflexão e diálogo entre academia e prática profissional, convidou seis instituições que a pronto aceitaram o desafio de conversarem entre si e com a plateia presente. As instituições foram: a Polícia de Segurança Pública (PSP), representada pelo agente Principal Bruno Pereira; a Equipa Multidisciplinar de Apoio Técnico aos Tribunais (EMAT), com o Dr. Luis Ricardo Ciríaco Simenta; a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Beja (CPCJ), representada pela Dra. Teresa Carapeto; a Casa Pia de Beja, com a presença da Dra. Núria Pires; a Fundação Manuel Gerardo de Sousa e Castro, através da Dra. Laura Rodrigues; e a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), representada pela Dra. Isa Gomes.
Cada profissional representante das entidades, iniciou sua abordagem, partilhando a intervenção, o papel, a missão e as experiências adquiridas no campo de trabalho, incluindo o momento em que se esgotam os serviços e são transferidas para as outras instituições, o que reforçou a importância das redes de atenção. Essa dinâmica de exposição, permitiu uma visão alargada e concreta sobre os múltiplos contextos em que se desenvolvem a intervenção de profissionais de serviço social.
A PSP apresentou o trabalho desenvolvido no âmbito do programa Escola Segura, com um foco especial na prevenção em contexto escolar e no acompanhamento de crianças e jovens em risco. O agente Bruno Pereira partilhou exemplos práticos da articulação com escolas e famílias, evidenciando a importância do trabalho em rede com os/as profissionais da área social. Já a EMAT partilhou a sua experiência e visão sobre a escuta qualificada da criança em processos de separação litigiosa. Com 18 anos de experiência no sistema de justiça, o assistente social Luis Simenta sublinhou que, nestes contextos de elevado conflito parental, o papel do assistente social é fundamental na avaliação e acompanhamento das crianças, muitas vezes envolvidas em disputas emocionais entre progenitores. Destacou que o processo de escuta deve ser sempre ético, técnico e ativo, respeitando o direito da criança a ser ouvida, tal como previsto na Convenção sobre os Direitos da Criança e na legislação nacional. Segundo o técnico, é essencial que a criança seja preparada emocionalmente para ser ouvida em tribunal. Esta preparação passa por assegurar que compreende o processo, se sente segura e não está a reproduzir discursos manipulados por adultos. “O técnico não é apenas um mediador, mas também um observador atento das dinâmicas familiares”, afirmou Simenta, sublinhando a sua responsabilidade em detetar sinais de manipulação ou instrumentalização da criança. A construção de diagnósticos sociais rigorosos e fundamentados foi apontada como essencial para garantir decisões judiciais justas e uma intervenção técnica credível. Simenta alertou ainda para os perigos da suposta “neutralidade” do discurso técnico, defendendo uma atuação reflexiva e crítica, consciente dos próprios valores, limites e impactos da profissão. O técnico concluiu que uma intervenção verdadeiramente centrada na criança requer formação contínua, capacidade analítica e um profundo compromisso ético, pilares indispensáveis para a promoção de uma justiça mais humana e eficaz.
A Dra. Teresa Carrapeto contextualizou a funcionalidade da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), explicando que existem dois tipos de comissões: a alargada e a restrita, cada uma com funções diferentes. Também explicou como são aplicadas as medidas de promoção e proteção às crianças e jovens em risco, com base em princípios como o interesse superior da criança. Destacou ainda a importância do trabalho dos/as assistentes sociais nesse processo e a necessidade de colaboração entre todas as entidades envolvidas.
A Casa Pia de Beja, representada pela Dra. Núria Pires, deu a conhecer o quotidiano da resposta de acolhimento residencial de crianças e jovens do sexo masculino, refletindo sobre os desafios emocionais e comportamentais vividos pelos/as jovens acolhidos. A assistente social salientou a importância do acompanhamento técnico contínuo e da criação de um ambiente estruturado e seguro.
A Fundação Manuel Gerardo de Sousa e Castro, através da Dra. Laura Rodrigues, partilhou a experiência da intervenção pedagógica numa instituição de acolhimento, evidenciando o perfil das crianças e jovens do sexo feminino, os objetivos de promoção da autonomia e a preparação para a saída das casas de acolhimento, realçou que o objetivo final do acolhimento não é apenas garantir a proteção da criança ou jovem no presente, mas também preparar o seu regresso a um ambiente familiar estável e seguro. Este processo de reintegração familiar é desenvolvido com base em compromissos estabelecidos nos Acordos de Promoção e Proteção, que envolvem as famílias, os técnicos e as entidades do sistema. Este acompanhamento visa reconstruir laços familiares, trabalhar competências parentais e garantir que o retorno à família se faz de forma gradual, consciente e segura.
Tanto a Casa Pia quanto a Fundação Manuel Gerardo de Sousa e Castro, hoje enfrentam um grande desafio, que é adaptar crianças e jovens de ambos os sexos em suas dependências, pois anteriormente a Casa Pia só recebia jovens do sexo masculino e a Fundação Manuel Gerardo de Sousa e Castro do sexo feminino e a partir da nova resolução na Lei 147/99, a partir de outubro de 2024, há a obrigatoriedade de receberem e acolherem os agregados familiares para não quebrarem os vínculos das crianças e jovens a serem institucionalizados/as.
Por fim, a DGRSP, pela voz da Dra. Isa Gomes, apresentou os eixos de atuação junto de jovens em cumprimento de medidas tutelares educativas e adultos em processo de reinserção. A intervenção destacou o papel da mediação, do acompanhamento psicossocial e da supervisão técnica como ferramentas essenciais à reintegração social.
O evento reforçou o papel do/a assistente social na mediação entre pessoas, instituições e sistemas, e na defesa de direitos fundamentais. Além disso, proporcionou uma reflexão profunda sobre ética, articulação interinstitucional, escuta ativa e intervenção crítica, aspetos centrais no exercício do Serviço Social. Organizada com empenho e responsabilidade pelos/as estudantes, esta iniciativa representou um verdadeiro exercício de articulação entre teoria e prática, com impacto direto na construção da identidade profissional, no desenvolvimento de competências relacionais e na valorização do Serviço Social como profissão comprometida com a justiça social.
A roda de conversa se constituiu como um momento privilegiado de aprendizagem e de aproximação ao mundo profissional, já que a partir das reflexões posteriores e na avaliação em grupo, os e as estudantes refletiram sobre os desafios que a intervenção profissional traz para as demandas cotidianas e a importância da ética, da escuta ativa e da articulação interinstitucional.
Refletiram que as partilhas feitas pelas entidades reforçaram a consciência do papel do/a assistente social como agente de mediação, defensor/a de direitos e promotor/a de justiça social, reforçando que mais do que uma simples atividade curricular, esta iniciativa teve um significado especial para a turma do 2º ano.
“Pela primeira vez na história do curso, foi-nos proposto organizar uma roda de conversa no âmbito da unidade curricular “Intervenção em Serviço Social – Justiça”, um desafio lançado pela professora Maria Helena Loureiro Cachopo. Esta confiança depositada em nós comoveu-nos profundamente, pois demonstrou o reconhecimento do nosso empenho, responsabilidade e capacidade de articulação. Foi uma experiência enriquecedora que nos ajudou a consolidar conhecimentos e a pensar com mais clareza no nosso futuro enquanto assistentes sociais. A organização e participação nesta atividade contribuíram para o desenvolvimento de competências fundamentais como o pensamento crítico, o trabalho colaborativo e o compromisso com a justiça social, elementos estruturantes para o exercício de uma profissão ética, reflexiva e transformadora”. (comissão organizadora)
Comissão Coordenadora: Profa. Maria Helena Loureiro Cachopo
Comissão Organizadora:
Ana Lança
Ana Nunes
Bárbara Gonçalves
Beatriz Caetano
Bruno Pereira
Camila Teixeira
Carina Rosa
Carolina Gonçalves
Dânia Raposo
Emanuel Venâncio
Érica Dias
Érica Lameira
Fernanda Reis
Jéssica Domingues
Joana Pires
Henrique Mendonça
Inês Ramos
João Martins
Leonor Lança
Luana Monteiro
Margarida Marino
Margarida Pacheco
Margarida Pucarinho
Margarida Raposo
Maria Laranjinha
Mariana Caetano
Radyja Silva
Raquel Domingos
Sofia Leão