A roda de conversa partiu de uma questão central: como construir relações verdadeiramente colaborativas entre a Academia e as Organizações da Sociedade Civil, capazes de produzir conhecimento crítico, situado e comprometido com a transformação social? A partir das experiências do Instituto Hegoa, da Faculdade de Educação e Psicologia, da Universidade Católica Portuguesa e da Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra, bem como das realidades basca, colombiana e portuguesa, a conversa permitiu refletir sobre as potencialidades, tensões e condições necessárias para este tipo de colaboração.
Amaia apresentou a experiência do Hegoa a partir de uma perspetiva de educação crítica, feminista, antirracista e emancipadora, orientada para a transformação social. Este trabalho articula formação, investigação, produção de materiais pedagógicos e incidência política, procurando questionar os modelos dominantes de educação e de produção de conhecimento.
A reflexão parte também de uma crítica à universidade contemporânea, marcada por lógicas produtivistas e mercantilizadoras e por uma forte aproximação às necessidades do mercado, fruto do sistema capitalista neoliberal. Neste modelo, os conhecimentos produzidos por coletivos, movimentos sociais e comunidades — tanto no Norte como no Sul Global — são frequentemente desvalorizados. Mas a universidade pode também ser um espaço de luta e resistência, capaz de questionar o status quo e de fortalecer estudantes e docentes enquanto sujeitos conscientes do seu papel na transformação social.
Neste contexto, Amaia partilhou uma experiência de investigação crítica e colaborativa desenvolvida a partir de um projeto de articulação entre o País Basco e a Colômbia, envolvendo estudantes, docentes e agentes sociais. A experiência procurou colocar em diálogo a cultura académica e as formas de produção social de conhecimento, ampliando os sujeitos, os territórios e as perspetivas envolvidas na investigação.
Entre os fatores que favorecem este tipo de colaboração destacou-se a valorização de todos os conhecimentos, sem hierarquias, a horizontalidade, a capacidade de construir em conjunto, o compromisso com a transformação da realidade, o diálogo e o encontro. Para isso, é necessária uma universidade atenta aos territórios e comprometida com a sociedade.
Ao mesmo tempo, persistem obstáculos importantes: a própria estrutura universitária e a separação entre Academia e movimentos sociais; a ideia de um conhecimento universal e de uma única forma legítima de saber; a escassa experiência de trabalho em rede; e uma cultura de competição e individualismo que dificulta a colaboração. Amaia chamou ainda a atenção para atitudes de arrogância e para uma certa visão extrativista da Academia, que pode transformar comunidades e territórios em meros objetos de investigação.
Face a estes desafios, propôs a criação de comunidades de investigação baseadas no respeito mútuo, na horizontalidade e na co-construção do conhecimento, bem como espaços interdisciplinares de debate, trabalho em rede e diálogo entre iguais. Sublinhou ainda a importância de problematizar os próprios privilégios e relações de poder e de garantir que os resultados da investigação são devolvidos, partilhados e socializados com as comunidades que participaram nos processos, não caindo, assim, no extrativismo epistemológico. Chamou, ainda, a atenção que é fundamental que a academia desaprenda o modelo capitalista e neoliberal e que recupere o sentido radical do público e do bem comum.
Mais do que levar uma proposta previamente definida, a universidade deve estar disponível para construir a própria investigação em conjunto. Isso implica perguntar: de onde investigamos? Para quê? Com quem? E para quem? A investigação passa, assim, a ser entendida também como uma prática ética e política, comprometida com as comunidades e os territórios.
Uma das aprendizagens fundamentais destas experiências é que, quando o conhecimento é construído coletivamente, o próprio conhecimento se transforma. Torna-se mais situado, mais atento às problemáticas concretas e às possibilidades de resposta dos territórios. E transformam-se também as pessoas envolvidas, rompendo estereótipos e alterando as próprias formas de ensinar, aprender e investigar. Outra das aprendizagens que emerge é a de que é possível desaprender o pensamento de que o desenvolvimento é o melhor projeto de vida possível e de que o sistema nos dará respostas científicas e tecnológicas para sair desta crise. Segundo Amaia, a academia deve superar o epistemicídio moderno através da confrontação de lógicas eurocêntricas, patriarcais, extrativistas e antropocentristas.
Amaia reforçou, ainda, a importância de não cair na desesperança perante a atual crise civilizacional, marcada por guerras, alterações climáticas, militarização, genocídios e pelo crescimento das extremas-direitas. Manter uma esperança crítica implica agir, muitas vezes através de pequenas ações coletivas que permitem fortalecer, inspirar e manter viva a possibilidade de transformação. Manter a utopia é também uma forma de resistência.
Mónica trouxe a reflexão para o campo da formação inicial de docentes, defendendo que formar educadoras e educadores não pode significar apenas prepará-los para ensinar dentro da escola. A escola não é uma realidade isolada e, por isso, é fundamental criar pontes entre a universidade e a sociedade civil.
Experiências como a Aprendizagem em Serviço (ApS), os laboratórios pedagógicos e os espaços de diálogo podem contribuir para essa aproximação. O contacto com comunidades e organizações sociais transforma também a própria posição de quem investiga: permite reconhecer invisibilizações, facilita o acesso a outras fontes de conhecimento e leva a formular perguntas de investigação mais situadas.
No fundo, estas experiências obrigam a repensar o que é digno de ser investigado e como se investiga.
Mas esta aproximação não está isenta de tensões. Os tempos da universidade, dos projetos e das organizações sociais são diferentes — e nenhum deles coincide necessariamente com o tempo necessário para produzir mudanças transformadoras. Também a linguagem pode constituir uma barreira: a Academia tende a utilizar uma linguagem mais teórica e especializada, enquanto as comunidades partem frequentemente de outros modos de expressão e de conhecimento. Encontrar um terreno comum é, por isso, parte do próprio processo de colaboração.
Luísa apresentou a Aprendizagem em Serviço (ApS) como uma metodologia que articula aprendizagem e serviço à comunidade, permitindo transformar simultaneamente os processos e os resultados da aprendizagem.
Na ApS, o projeto é construído em conjunto com a comunidade: parte-se de um diagnóstico de necessidades, e estudantes, docentes e organizações parceiras participam no desenho, planeamento, desenvolvimento, avaliação, celebração e partilha do processo. A premissa é simples, mas transformadora: todas as pessoas são recursos de aprendizagem; todas têm conhecimentos a ensinar e a aprender.
Para que exista uma verdadeira ApS, o serviço deve responder a necessidades reais e significativas, estar articulado com o currículo e ser acompanhado por processos estruturados de ação e reflexão. As organizações da sociedade civil são parceiras efetivas e não meras destinatárias, numa relação horizontal, recíproca e assente na confiança. As e os estudantes assumem um papel protagonista no processo.
Esta abordagem pode produzir transformações pessoais, profissionais e académicas não apenas em estudantes, mas também em docentes e nas próprias organizações parceiras.
Também aqui surgem desafios, nomeadamente relacionados com o tempo e o reconhecimento institucional. É necessário criar condições para que docentes e estudantes possam envolver-se nestes projetos, através do reconhecimento do trabalho realizado, da atribuição de tempo, de mecanismos de avaliação e de um compromisso institucional efetivo com a ApS. A interdisciplinaridade surge igualmente como um elemento fundamental, permitindo cruzar diferentes áreas de conhecimento na resposta a problemas concretos.
A conversa deixou claro que não existem receitas únicas, mas existem princípios e práticas que podem inspirar outros contextos. Uma colaboração transformadora entre Academia e Sociedade Civil exige tempo, confiança, compromisso e disponibilidade para questionar as relações de poder existentes.
Implica reconhecer que o conhecimento é plural e situado; criar espaços de diálogo e investigação em que diferentes saberes possam encontrar-se em condições de maior horizontalidade; dar protagonismo às comunidades e organizações; e garantir que os resultados dos processos de investigação regressam às pessoas e territórios que os tornaram possíveis.
Implica, também, aceitar que a universidade não tem todas as respostas e não pode responder sozinha aos desafios da sociedade. Os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil produzem conhecimento a partir das suas práticas, lutas e experiências, contribuindo para imaginar e construir alternativas.
Neste sentido, co-investigar e co-construir conhecimento é mais do que uma metodologia: é uma forma diferente de compreender a própria investigação, a educação e o papel da universidade na sociedade.
Ficou, por fim, um desafio: como identificar e fortalecer as pequenas “brechas” existentes nas instituições e nos territórios? Como criar condições para que estas experiências não dependam apenas de projetos ou financiamentos pontuais, mas possam permanecer e transformar a própria cultura das universidades?
Talvez uma das respostas esteja precisamente na capacidade de criar redes, disseminar experiências, partilhar boas práticas e testemunhos e, sobretudo, fazer em conjunto. Porque, como lembra a inspiração zapatista evocada na conversa, é possível imaginar e construir “um mundo onde caibam muitos mundos”.